terça-feira, 11 de outubro de 2011

COMPLEXO DE CHULÉ - UMA ANÁLISE ANÁRQUICO-IRÔNICA DO ESPETÁCULO "OS NÁUFRAGOS DA LOUCA ESPERANÇA", DO THEATRE DU SOLEIL

Como vocês podem ver, eu fui.
Aqui, cabe mais uma vez a velha frase tantas vezes por mim repetida: “Porque ainda insisto em ir ao teatro?”
Os Náufragos da Louca Esperança, como todos sabem, utiliza-se da metalinguagem para fazer uma homenagem ao cinema a partir da história de um grupo de habitués de um cabaret, que resolvem fazer um filme. Mudo, evidentemente – afinal estamos em 1914, às vésperas da primeira grande guerra.
Em meio à monumentalidade dos cenários, que nos remetem aos painéis que compunham a cenografia dos antigos espetáculos de Vaudeville ou das comédias de costume, vemos um imenso grupo de atores (quantos são mesmo?) correndo de um lado para o outro (com um apuro técnico impressionante – é preciso reconhecer) para desfazer e refazer, a cada 10 ou 15 minutos, quadros compostos de janelas, carruagens, navios, salões.... etc, etc, etc – tudo isso com riqueza de detalhes naturalistas, claro.
Os cacoetes reproduzidos a exaustão pelos atores no intuito de mimetizar o tal do filme mudo, sequer são expressionistas (com exceção de uma das cenas do convés, na qual Maurice Durozier dá um show), opção que poderia salvá-los do enfado. Mas não, a preocupação excessiva em reproduzir uma “realidade” (?) exige que o filme mudo seja ruim - afinal trata-se de uma produção amadora (a do filme dentro da peça, que fique claro).
Museu.
Corro o risco de ser linchado em praça pública.
Assumo o risco: MUSEU.
Ok. Os museus são de fundamental importância na preservação da história da arte, mas costumam invariavelmente ser um grande amontoado de pinturas ou esculturas dispostas em salas, que temos que percorrer incansáveis, para finalmente nos depararmos com algumas delas que realmente possam receber o nome de ARTE.
Ok. O Theatre Du Soleil tem “trezentos anos” de existência; o Theatre Du Soleil, com seu modo de produção e espetáculos de uma enorme força visual e discurso humanista, constituiu-se numa revolução nos anos 70.
Nos anos 70.
Até quando vamos permanecer atrelados ao passado, nos recusando a dialogar com a contemporaneidade?
Até quando vamos ignorar o processo evolutivo pelo qual vem passando as artes de um modo geral, aprisionando o teatro no século 19?
Sim, porque a impressão que fica é que para o Theatre Du Soleil Artaud, Meiahold, Grotovsky, Gordon Craig... nunca existiram. Sem falar de Picasso, Van Gogh, Egon Schiele, Francis Bacon...
Essa impressão já havia me ocorrido quando vi o espetáculo que o Theatre Du Soleil trouxe para São Paulo em 2007; mas se em Les Ephemeres o ator era um dos elementos fundamentais do espetáculo, em Os Náufragos da Louca Esperança, ele está em quarto plano dentro da encenação; em primeiro está a contra-regragem, em segundo os cenários e em terceiro a música. O que revela, a meu ver, uma profunda contradição com seu discurso humanista.
E na platéia, alguns dormiam enquanto outros riam dos cacoetes. Terminada a primeira parte, aplausos calorosos, gritinhos... – todos os componentes necessários para a realização do ESPETÁCAULO (precisamos rever urgentemente, mas com olhos críticos, as reflexões de Guy Debord sobre a Sociedade do Espetáculo), afinal era o Theatre Du Soleil, um dos mais importantes grupo do teatro europeu.
Eu vim embora no intervalo – tinha mais o que fazer.
E o complexo de chulé? Foi só pra rimar, mas poderia também ser chamado de Complexo de Vira-latas – como diria Nelson Rodrigues.
Ah! E a opção vegetariana, constante do cardápio disponível antes do espetáculo, continha ovo. Mas como um grupo que usa casaco de peles em cena pode saber que vegetarianos se alimentam de vegetais e que ovo não dá em árvore?

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