quinta-feira, 1 de outubro de 2009

HAROLD PINTER - LÚCIDO E DEVASTADOR

Harold Pinter - Lúcido e Devastador
Natal de 2008. Do outro lado do oceano, na invernal Europa, falecia o dramaturgo inglês Harold Pinter, uma das vozes mais significativas da dramaturgia mundial do século XX, após uma luta de seis anos contra um câncer no esôfago.

Filho de um alfaiate judeu, nasceu em Londres em 1930. Antes dos vinte anos, começou a publicar poemas em diversas revistas. Depois estudou Arte Dramática na Royal Academy of Art e na Central School of Speech and Drama. Trabalhou como ator numa companhia shakespeariana, para depois dedicar-se a escrever obras dramáticas e roteiros cinematográficos, incluindo peças curtas para o rádio e televisão. Por isso o Prêmio Nobel de Literatura em 2005 foi o justo corolário de uma trajetória de cinquenta anos vinculadas ao teatro.

Falar de Pinter é falar de textos que, desde o início dos anos 50, começaram a calar fundo numa época em que os desatinos da Segunda Guerra Mundial deixara um sabor amargo. Para que reconstruir nossas casas e nossas vidas se existe o temor a um novo conflito? Nessa época, tanto Albert Camus como Jean-Paul Sartre levantaram teorias existencialistas e o pessimismo era uma espécie de leitmotiv cotidiano. Assim como o niilismo. O conhecido ensaio O mito de Sísifo, de Camus, esclarece com profundidade o que se vivia: Sísifo, castigado pelos deuses, deve empurrar uma rocha, sem parar, até o cume de uma montanha, de onde caia e ele deveria começar o trabalho novamente. O absurdo, o porquê e também o como. A loucura.

No início, Eugenio Ionesco e Samuel Beckett é que escreveram obras nas quais, por trás do aparente absurdo, havia um angustiante chamado de personagens desamparados, que esperavam algum sinal e que brincavam para "preencher" esse tempo cíclico. Trabalhos como A cantora Careca (Ionesco) e Esperando Godot (Beckett), entre os mais significativos, constituem o paradigma desse "absurdo" superficial que escondia mais de um significado. Na narrativa, é o absurdo labiríntico de Franz Kafka.

Sem dúvida alguma, Harold Pinter foi o continuador desta tendência na década dos anos 60. Mas voltando no tempo, no final do século XIX, num teatro parisiense o dramaturgo Alfred Jarry fez com que um de seus personagens pronunciasse o já mítico "merde". Nesse momento, algo mudou no teatro. Na obra O Amante, de Pinter, a concisa pergunta de Richard a sua mulher: " Seu amante vem hoje?" provoca outro baque, outra mudança. De alguma forma, sente-se o poder transformador da linguagem e, como um tremendo paradoxo, sua utilização para expressar um dos temas recorrentes desse momento: o problema da incomunicação.

Então, nesse contexto, esse jogo realizado pelos personagens para evitar a rotina, jogo que definitivamente também efetua uma rotina, não tem motivo para nos surpreender. É parte de uma realidade manifesta. Por isso mesmo, quando Pinter assinala: "Trato com personagens em situações limites de sua existência quando se encontram solitários, no momento em que voltam a seus dormitórios e enfrentam o problema básico de existir", apresenta-nos um panorama bastante desolador, diante do qual só cabe provocar este desdobramento, à margem da dor implícita em sua essência. Ironia. Confusão de planos. Ambigüidade. Perda da identidade. Necessidade afetiva. Todos estes elementos confluyen numa obra intensa, lúcida, devastadora. Como para seguir perguntando " seu amante vem hoje?". Como para continuar brincando. Ficção ou realidade?

REFÚGIO E ASSÉDIO

Uma temática constante nessas obras é que o mundo aparece como uma ameaça. Diante disso, seus personagens procuram um refúgio, que é representado por um quarto. E eles temem perdê-lo ou que alguém o invada. Assim, através de uma progressão imperceptível, aparecem situações naturais até chegar a uma inaceitável, num clima de total angústia, e o personagem principal aparece destruído moralmente. O escritor Ariel Dorfman, um estudioso de Pinter, em seu excelente livro O absurdo entre quatro paredes, destaca o seguinte: "As obras de Pinter ocorrem num dormitório, onde se refugiou um ser humano. Um perigo o espreita lá fora, um perigo que mal conhece mas que sempre quis esquecer; uma ameaça que vai-se tornando cada vez mais concreta nesse quarto e nessa consciência e em nossa mente de espectadores, mas que resulta cada vez mais vaga, estranha, impossível. No final da obra, a pessoa fica destruída. Às vezes é uma destruição total. Outras, uma destruição sutil, trinca-se um espelho interior que parecia limpo e eterno ".
O anterior nos remete à dialética do espaço aberto frente ao espaço fechado, um tema apropriado pela literatura, em termos gerais.

LINGUAGEM AMBÍGUA

Diferentes estudiosos recalcaram a importância da linguagem (o que se diz e o que não se diz) na produção pinteriana. Reconhecem sua economia de meios expressivos, seu silêncio, seus magistrais diálogos e uma grande habilidade para captar os ditos populares, incorporados de tal maneira que o que se diz nos parece incoerente. Isto é, manifesta-se uma aproximação da linguagem à verdade da linguagem falada, um verdadeiro coloquialismo. Para George Wellwarth, em Teatro de protesto e paradoxo, "Pinter faz gala de um ouvido realmente extraordinário para captar as pautas de linguagem das pessoas comuns, assim como possui uma grande habilidade para a criação de suspense mediante uma série de conflitos sustentados só momentaneamente. O diálogo de Pinter fascina por sua própria monotonia e reiteração". Para Pinter, "a linguagem é uma comunicação extremamente ambígua. Assim, freqüentemente, sob as palavras ditas está a coisa notável e não dita".

A nosso ver, um de seus textos emblemáticos é O Montacargas. Dois personagens (Ben e Gus) estão encerrados em um porão, esperando uma ordem para cumprir um "trabalho". O argumento nada mais é do que este; portanto, o que interessa é como os dois se inter-relacionam e as diversas ações (muito simples) que eles realizam para passar o tempo da espera. Por exemplo, logo no início Ben está deitado lendo o jornal e Gus está sentado, amarrando os cordões dos sapatos (esta imagem nos recorda Wladimir e Estragon em Esperando Godot). Depois, Ben se refere às intransponíveis notícias do jornal como, por exemplo, a de uma menina de oito anos que matou um gato. Desta maneira, tudo vai adquirindo uma dinâmica onde o simbólico e o ambíguo se entrecruzan continuamente. 

Definitivamente, são seres medrosos, inseguros, com desconfiança e obrigados, talvez sem querer, a compartilhar o mesmo espaço.
Neste contexto, tanto o montacargas como o tubo acústico nesse dormitório simbolizam a presença externa: "ouve-se um ruído metálico na protuberância da parede, como algo que está descendo". Isto provoca tensão e, ao mesmo tempo, violência, aproximando-nos de um desenlace inesperado, onde a ameaça externa já estava presente no espaço interior. A proteção diante da desproteção. Uma espécie de sufoco existencial, uma necessidade de escapar desse pesadelo. Gus, por exemplo, não gostaria de viver nessa pocilga"… ainda que "poderia passar se tivesse uma janela, visto que poderia olhar para fora".

Numa época em que a dramaturgia está tomando outra direção, onde a linguagem da palavra perdeu a capacidade expressiva (tema, sem dúvida, que dá para uma extensa reflexão e discussão), a partida deste dramaturgo constitui em si outro abalo. Assim, de abalo em abalo, constrói-se a história do teatro, no decorrer dos séculos e, em conseqüência, no específico, valoriza-se a contribuição dos cinquenta anos de dramaturgia de Harold Pinter. Para sempre.

OBS.: Artigo publicado originalmente no site amaivos.uol.com.br, adaptado por nós.

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