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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

UMA CULTURA E A NOVA SENSIBILIDADE - POR SUSAN SONTAG

Nos últimos anos, tem havido um intenso debate em torno de uma suposta ruptura que, há cerca de dois séculos, com o advento da Revolução Industrial, se teria produzido entre "duas culturas", a artístico-literária e a científica. Segundo este diagnóstico, qualquer indivíduo inteligente e lúcido, hoje, vive uma cultura como exclusão da outra. Ele se interessa por documentos diferentes, técnicas diferentes, problemas diferentes; fala uma linguagem diferente. Eo que é mais importante, o esforço exigido para o domínio de cada uma das culturas será totalmente diferente.

Pois a cultura artístico-literária é entendida como uma cultura geral. Ela se destina ao homem enquanto homem; é cultura ou, antes, ela promove cultura, no sentido de cultura definido por Ortega y Gasset: aquela que um homem possui quando esquece tudo o que leu. A cultura científica, ao contrário, é uma cultura para especialistas; ela se baseia na lembrança e se constitui em formas que exigem uma completa dedicação ao esforço da apreensão. Embora a cultura artístico-literária vise à interiorização, a ingestão, em outras palavras, o cultivo, a cultura científica visa o acúmulo e a exteriorização em instrumentos complexos, para a solução de problemas e técnicas específicas de domínio.

Embora T. S. Eliot faça remontar a ruptura entre as duas culturas a um período mais remoto da história moderna, falando num famoso ensaio de uma "dissociação de sensibilidade" ocorrida no século XVII, a relação do problema com a Revolução Industrial parece válida. Muitos intelectuais e artistas têm uma antipatia histórica pelas mudanças que caracterizam a sociedade moderna acima de tudo, a industrialização e os efeitos desta, que cada um já experimentou, como a proliferação de enormes cidades impessoais e o predomínio do estilo anônimo da vida urbana. Pouco importa se a industrialização, fruto da "ciência" moderna, é representada, segundo o modelo do século XIX ou do início do século XX, por barulhentos e fumegantes processos artificiais que corrompem a natureza e padronizam a cultura, ou segundo o modelo mais novo, pela tecnologia automatizada, limpa, que surge na segunda metade do século XX. O juízo é em grande parte o mesmo. Os intelectuais, sentindo que a própria condição da humanidade estava sendo ameaçada pela nova ciência e pela nova tecnologia, detestaram e deploraram a mudança. Mas os intelectuais, quer pensemos em 

Emerson ou Thoreau e Ruskin no século XIX, quer nos intelectuais do século XX, que falam da sociedade moderna como algo, de alguma nova maneira, incompreensível, "alienado", ficam inevitavelmente na defensiva. Eles sabem que a cultura científica, o advento da máquina, não podem ser detidos.
A resposta comum ao problema das "duas culturas" - e a questão antecipa-se, em muitas décadas, a crua e grosseira enunciação do problema por C. P. Snow numa conferência, anos atrás - tem sido uma defesa superficial da função das artes (em termos de uma ideologia do "humanismo" ainda mais vaga) ou uma rendição prematura da função das artes à ciência. No que concerne à segunda resposta, não estou me referindo à vulgaridade dos cientistas (e dos artistas e filósofos da mesma espécie) que desprezam as artes considerando-as inexatas, inautênticas, na melhor das hipóteses meros brinquedos. 

Estou falando das sérias dúvidas que surgiram entre os que estão intensamente envolvidos com as artes. O papel do artista na produção de objetos únicos com a finalidade de proporcionar prazer e educar a consciência e a sensibilidade foi repetidamente questionado. Alguns escritores e artistas chegaram a profetizar a morte da atividade artística do homem. Numa sociedade científica automatizada, a arte seria não funcional, inútil.
Mas esta conclusão, eu diria, é claramente injustificada. De fato, todo o problema me parece grosseiramente colocado. Pois a questão das "duas culturas" parte do pressuposto de que ciência e tecnologia estão mudando, estão em movimento, enquanto as artes são estáticas, desempenhando uma função humana genérica e eterna (conforto? edificação? diversão?). Somente a partir desse falso pressuposto seria possível raciocinar que as artes correm o risco de se tomar obsoletas.

A arte não progride no sentido da ciência e da tecnologia. Entretanto, as artes se desenvolvem e mudam. Por exemplo, no nosso tempo, a arte esta se tornando gradativamente um campo para especialistas. A arte mais interessante e criativa do nosso tempo não está aberta aos que têm uma cultura geral; ela exige um esforço especial; fala uma linguagem especializada. A música de Milton Babbitt e Morton Feldman, a pintura de Mark Rothko e Frank Stella, a dança de Mercê Cunningham e James Waring exigem uma educação da sensibilidade em que as dificuldades e a duração do aprendizado são pelo menos comparáveis às dificuldades inerentes ao domínio da física ou da engenharia. (Somente o romance, entre as artes, pelo menos na América, não oferece exemplos semelhantes.) O paralelo entre o caráter abstruso da arte contemporânea e o da ciência moderna é demasiado óbvio para não ser percebido. Outra semelhança com a cultura científica é a preocupação com a história da arte contemporânea. As obras mais interessantes da arte contemporânea estão repletas de referências à história de cada veículo; na medida em que elas refletem sobre a arte do passado, exigem um conhecimento pelo menos do passado recente. Como salientou Harold Rosenberg, as pinturas contemporâneas são em si atos de crítica e ao mesmo tempo de criação.

Poderíamos observar o mesmo a respeito das recentes obras no campo da cinematografia, música, dança, poesia e (na Europa) da literatura. Além disso, pode-se perceber uma semelhança com o estilo da ciência, dessa vez, com o aspecto cumulativo da ciência.
O conflito entre "as duas culturas" é, na realidade, uma ilusão, um fenômeno temporário, surgido em um período de profundas e desconcertantes mudanças históricas. O que testemunhamos não é tanto um conflito de culturas quanto a criação de um novo tipo de sensibilidade (potencialmente unitário). Essa nova sensibilidade está arraigada, e tem de estar, em nossa experiência, experiências que são novas na história da humanidade , na extrema mobilidade social e física; no abarrotamento do cenário humano (pessoas e mercadorias materiais multiplicando-se a uma velocidade atordoante); na disponibilidade de novas sensações como a velocidade (velocidade física, como uma viagem de avião; velocidade das imagens, como no cinema; e na perspectiva pancultural das artes, possível pela reprodução em massa dos objetos de arte.

O que temos não é a morte da arte, mas uma transformação da função da arte. A arte, que surgiu na sociedade humana como uma atividade mágico-religiosa e se transformou em uma técnica para retratar e comentar a realidade secular, arrogou-se em nosso próprio tempo uma nova função, nem religiosa, nem desempenhando uma função religiosa secularizada, nem meramente secular ou profana (conceito que desaparece quando seu oposto, o "religioso" ou o "sagrado", se torna obsoleto). A arte hoje é um novo tipo de instrumento, um instrumento para modificar a consciência e organizar novos modos de sensibilidade. E os recursos para a prática da arte foram radicalmente ampliados. Na realidade, respondendo a esta nova função (mais sentida do que claramente expressa), os artistas tiveram de se tornar estetas conscientes: desafiando continuamente seus recursos, seus materiais, seus métodos. Freqüentemente, a conquista e exploração de novos materiais e métodos inferidas do mundo da "não-arte", por exemplo, da tecnologia industrial, dos processos e das imagens comerciais, de fantasias e sonhos puramente pessoais e subjetivos, parece constituir o principal esforço de muitos artistas. Os pintores já não se sentem limitados à tela e à tinta, mas utilizam cabelos, fotografias, cera, areia, pneus de bicicleta, suas próprias escovas de dentes e meias. Os músicos foram além dos sons dos instrumentos tradicionais e usam instrumentos modificados, sons sintetizados e ruídos industriais (em geral gravados).

Todas as fronteiras convencionalmente aceitas foram assim contestadas: não apenas aquela entre as culturas "científica" e a "artístico-literária", ou aquela entre "arte" e "não-arte"; mas também muitas distinções estabelecidas no próprio universo da cultura, entre forma e conteúdo, entre o frívolo e o sério e (distinção favorita dos intelectuais) entre cultura "erudita" e "não-erudita".
A distinção entre cultura "erudita" e "não-erudita" (ou "de massa" ou "popular") baseia-se em parte numa avaliação da diferença entre objetos únicos e objetos produzidos em massa. Na era da reprodução tecnológica em massa, a obra do artista tinha um valor especial simplesmente porque era única, porque trazia sua assinatura pessoal, individual. As obras da cultura popular (o próprio cinema foi por muito tempo incluído nessa categoria) eram consideradas obras de pouco valor por serem objetos manufaturados, que não traziam uma marca individual, feitos por um grupo para um público não-diferenciado Mas à luz da prática contemporânea das artes, esta distinção parece extremamente superficial. Muitas obras de arte das últimas décadas possuem um caráter decididamente impessoal. A obra de arte está reafirmando sua existência como "objeto" (mesmo como objeto fabricado ou produzido em massa, inspirado nas artes populares) e não como uma "expressão pessoal individual".

A exploração do impessoal (e do transpessoal) na arte contemporânea, representa o novo-classicismo; pelo menos, uma reação contra o que se entende por espírito romântico domina atualmente a maior parte da arte interessante. A arte de hoje, com sua insistência na frieza, seu repúdio do que considera sentimentalismo, seu espírito de exatidão, seu senso da "pesquisa" e dos "problemas", está mais próxima do espírito da ciência do que da arte no sentido antiquado. Freqüentemente, a obra do artista é apenas sua idéia, seu conceito.
 Essa é uma prática comum na arquitetura, é claro. E lembramos que os pintores da Renascença freqüentemente deixavam partes de suas telas para serem concluídas por discípulos, e que, no período do florescimento do concerto, a cadenza no final do primeiro movimento era deixada à criatividade e à iniciativa do solista. Mas práticas semelhantes possuem um significado diferente, mais polêmico, hoje, na era pós-romântica da arte. Quando pintores como Joseph Albers, Ellsworth Kelly e Andy Warhol entregam partes da obra, digamos, a colocação das cores, a um amigo ou ao jardineiro local; quando músicos como Stockliausen, John Cage e Luigi Nono solicitam a colaboração de instrumentistas permitindo a possibilidade de efeitos aleatórios, a mudança da ordem da partitura, improvisações , estão alterando as regras fundamentais que a maioria emprega para reconhecer uma obra de arte. Eles estão dizendo o que a arte não precisa ser. Pelo menos, não necessariamente.

A característica fundamental dessa nova sensibilidade é que seu produto típico não é a obra literária, acima de tudo, o romance. Existe hoje uma nova cultura não-literária, cuja existência, sem falar na importância, a maioria dos intelectuais desconhece totalmente. Este novo establishment inclui certos pintores, escultores, arquitetos, planejadores sociais, cineastas, técnicos de TV, neurologistas, músicos, engenheiros eletrônicos, bailarinos, filósofos e sociólogos. (Poderíamos incluir alguns poetas e prosadores.) Alguns textos básicos desse novo alinhamento cultural podem ser encontrados nas obras de Nietzsche, Wittgenstein, Antonin Artaud, C. S. Sherrington, Buckminster Fuller, Marshall McLuhan, John Cage, André Breton, Roland Barthes, Claude Lévi-Strauss, Siegfried Gidieon, Norman O. Brown e Gyorgy Kepes.
Os que se preocupam com a ruptura entre as "duas culturas", e isto significa praticamente todos os intelectuais no campo da literatura na Inglaterra e na América, pressupõem um conceito de cultura que decididamente precisa ser reexaminado. Esse conceito é talvez melhor formulado por Matthew Arnold (segundo o qual o ato cultural fundamental é a criação literária, compreendida como crítica da cultura). Ignorando simplesmente os avanços vitais e fascinantes (a chamada "vanguarda") das outras artes, e obcecados por seu investimento pessoal na perpetuação do conceito mais antigo de cultura, eles continuam a se agarrar à literatura como modelo da afirmação criadora. O que confere à literatura sua proeminência é sua pesada carga de "conteúdo", ao mesmo tempo reportagem e julgamento moral. (Isto torna possível à maioria dos críticos literários ingleses e americanos utilizar obras literárias principalmente como textos, ou mesmo pretextos, para um diagnóstico social e cultural, em vez de se concentrarem nas propriedades de um dado romance ou de uma peça, como obra de arte.) Mas as artes típicas do nosso tempo são, em realidade, aquelas que possuem um conteúdo muito menor e um tipo de julgamento moral muito mais frio como a música, o cinema, a dança, a arquitetura, a pintura, a escultura. A prática dessas artes, todas elas inspiradas abundantemente, naturalmente e sem constrangimento, na ciência e na tecnologia, é o fulcro da nova sensibilidade.

O problema das "duas culturas", em suma, repousa numa percepção não educada, não contemporânea de nossa atual situação cultural. É fruto da ignorância dos intelectuais (e dos cientistas que possuem um conhecimento superficial das artes, como o romancista-cientista C. P. Snow) de uma nova cultura e sua emergente sensibilidade. Na realidade, não pode haver divórcio entre ciência e tecnologia, de um lado, e arte, do outro, assim como não pode haver divórcio entre a arte e as formas da vida social. As obras de arte, as formas psicológicas e as formas sociais se refletem mutuamente, e se alteram mutuamente. Mas, é claro, a maioria das pessoas aceita lentamente tais mudanças, em especial hoje, quando as mudanças se dão com uma rapidez nunca vista. Marshall McLuhan definiu a história humana como uma sucessão de atos de extensão tecnológica da capacidade humana, cada qual operando uma mudança radical em nosso ambiente e em nossa maneira de pensar, sentir e avaliar. A tendência, observa, é promover o antigo ambiente a uma forma artística (assim, a Natureza se tornou um receptáculo de valores estéticos e espirituais no novo ambiente industrial), "embora as novas condições sejam consideradas corruptas e degradantes". Tipicamente, apenas certos artistas em dada época "possuem os recursos e a temeridade de viver em contato imediato com o ambiente de sua época... É por isso que eles podem parecer 'a frente de seu tempo'. Pessoas mais tímidas preferem aceitar os valores do ambiente anterior como a realidade incessante de seu tempo. Nossa tendência natural é aceitar os novos truques (a automação, por exemplo) como algo que pode ser acomodado à velha ordem ética." É somente nos termos do que McLuhan denomina a velha ordem ética que o problema das "duas culturas" parece constituir um verdadeiro problema. Não é um problema para a maioria dos artistas criativos do nosso tempo (entre os quais incluiríamos pouquíssimos romancistas) porque muitos desses artistas romperam, conscientemente ou não, com o conceito de cultura de Matthew Arnold, achando-o histórica e humanamente obsoleto.

O conceito de cultura de Matthew Arnold define a arte como a crítica da vida sendo esta entendida como a proposição de idéias morais, sociais e políticas. A nova sensibilidade entende a arte como extensão da vida, sendo esta entendida como a representação de (novos) modos de caso, não se trata de um repúdio necessário da função da avaliação moral, trata-se apenas de uma mudança de escala; ela se tornou menos exagerada e o que sacrifica em termos de explicitação discursiva ganha em precisão e força subliminar. Pois nós somos o que somos capazes de ver (ouvir, tocar, cheirar, sentir) inclusive mais forte e mais profundamente do que somos o conjunto das idéias que armazenamos em nossa cabeça. É claro que os que propõem a crise das "duas culturas" continuam a observar um desesperado contraste entre uma ciência e uma tecnologia ininteligíveis, moralmente neutras, de um lado, e uma arte em escala humana e moralmente comprometida, do outro. 

Mas as questões não são e jamais foram tão simples. Uma grande obra de arte nunca é simplesmente (ou mesmo principalmente) um veículo de idéias ou de sentimentos morais. É, antes de mais nada, um objeto que modifica nossa consciência e sensibilidade, alterando, ainda que ligeiramente, a composição do húmus que nutre todas as idéias e sentimentos específicos. Humanistas ultrajados, por favor, observem, não há necessidade de alarme. Uma obra de arte não deixa de ser um momento na consciência da humanidade no qual a consciência moral é compreendida como apenas uma das funções da consciência.
Sensações, sentimentos, formas e estilos abstratos de sensibilidade são importantes. É a estes que a arte contemporânea se dirige. A unidade básica da arte contemporânea não é a idéia, mas a análise e a ampliação das sensações. (Ou se é uma idéia", será sobre a forma da sensibilidade.) Rilke descreveu o artista como alguém que trabalha "para uma ampliação das regiões de cada sentido"; McLuhan chama os artistas especialistas em consciência sensorial.

E as obras mais interessantes da arte contemporânea (pelo menos a partir da poesia simbolista francesa) são aventuras da sensação, novas “misturas sensoriais”. Esta arte é, em princípio, experimental, não por um desprezo elitista por aquilo que é acessível à maioria, mas precisamente no sentido de que a ciência é experimental.
Tal arte é também notadamente apolítica e não didática, ou, antes, infra-didática. Quando Ortega y Gasset escreveu seu famoso ensaio A Desumanização da Arte, no início da década de 20, atribuiu as características da arte moderna (impessoalidade, o banimento do pathos, a hostilidade ao passado, a jocosidade, a estilização intencional, a ausência de engajamento ético e político) ao espírito da juventude que ele acreditava dominar nossa época. Retrospectivamente, parece que esta "desumanização" não significou a recuperação da inocência infantil, mas foi uma resposta muito adulta, consciente. Que outra resposta além da angústia, seguida pela anestesia e depois pela ironia e a elevação da inteligência acima do sentimento, seria possível dar à desordem social e às atrocidades em massa do nosso tempo, e igualmente importante para nossas sensibilidades, embora pouco notado, à mudança inusitada daquilo que governa nosso ambiente do inteligível e visível para aquilo que só com dificuldade é inteligível? A arte, que caracterizei como um instrumento de modificação e educação da sensibilidade e da consciência, atua agora num ambiente que não pode ser captado pelos sentidos.

Ortega observa nesse ensaio: "Se a arte redimisse o homem, só poderia fazê-lo salvando-o da seriedade da vida e devolvendo-o a uma inesperada infantilidade".
Buckminster Fuller escreveu: "Na Primeira Guerra Mundial, a indústria repentinamente passou do visível para o invisível, do trilho para o sem trilho, do fio para o sem fio, da estruturação visível para a estruturação invisível das ligas. A grande façanha da Primeira Guerra Mundial foi o fato de o homem abandonar para sempre o espectro sensorial como critério básico de reconhecimento das inovações... Todos os principais avanços a partir da Primeira Guerra Mundial deram-se nas freqüências infra e ultra-sensoriais do espectro eletromagnético. Todas as importantes realizações técnicas dos homens hoje são invisíveis... Os antigos mestres, que eram sensorialistas, abriram uma caixa de Pandora de fenômenos incontroláveis pelos sentidos, que haviam evitado reconhecer até aquele momento... Repentinamente, perderam sua verdadeira supremacia, porque a partir de então deixaram de compreender o que estava ocorrendo. Se você não entende, não pode dominar... A partir da Primeira Guerra Mundial, os antigos mestres foram extintos..."

Entretanto, é claro, a arte continua permanentemente vinculada aos sentidos. Assim como não podemos fazer flutuar as cores no espaço (um pintor precisa de algum tipo de superfície, como uma tela, por mais neutra e sem textura que seja), não pode haver uma obra de arte que não influencie o aparelho sensorial, mas é importante perceber que a consciência sensorial do homem não possui apenas uma biologia mas uma história específica, sendo que cada cultura valoriza certos sentidos e inibe outros. (O mesmo é válido para a gama das emoções humanas primárias.) É aqui que entra a arte (entre outras coisas), e é por isso que a arte do nosso tempo tem um tal sentimento de angústia e de crise, por mais jocosa e abstrata e supostamente neutra do ponto de vista moral que possa parecer. Pode-se dizer que o homem ocidental foi submetido a uma maciça anestesia sensorial (simultânea ao processo que Max Weber chama de "racionalização burocrática") pelo menos a partir da Revolução Industrial, e que a arte moderna funciona como uma espécie de terapia de choque que confunde e ao mesmo tempo libera nossos sentidos.
Já sugerimos uma importante conseqüência da nova sensibilidade (que abandonou o conceito de cultura de Matthew Arnold), ou seja, a distinção entre cultura "erudita" e "não erudita" parece ser cada vez menos importante. Pois esta distinção, inseparável do sistema de Matthew Arnold, simplesmente não faz sentido para uma comunidade criativa de artistas e cientistas empenhados em programar sensações, não interessados na arte como uma espécie de jornalismo moral. A arte sempre foi mais do que isso, em todo caso.

Outra maneira de caracterizar a atual situação cultural, em seus aspectos mais criativos, seria falar de uma nova atitude para com o prazer. Em certo aspecto, a nova arte e a nova sensibilidade têm uma visão bastante sombria do prazer. (Há doze anos, o grande compositor contemporâneo francês, Pierre Boulez, intitulou um importante ensaio de sua autoria "Contra o Hedonismo na Música".) A seriedade da arte moderna prelude o prazer no sentido comum, o prazer de uma melodia que podemos cantarolar de boca fechada depois de deixar a sala de concertos, de personagens de um romance ou de uma peça nos quais podemos nos reconhecer, nos identificar, e que podemos dissecar no que se refere aos seus motivos psicológicos realistas, de uma bela paisagem ou de um momento dramático representado numa tela. Se hedonismo significa manter as antigas formas nas quais encontrávamos prazer na arte (as antigas modalidades sensoriais e psíquicas), então a nova arte é anti-hedonista.

Nosso aparelho sensorial é ferido quando desafiado ou tensionado. A nova música sérial fere nossos ouvidos, a nova pintura não gratifica graciosamente nossos olhos, os novos filmes e as poucas obras em prosa interessantes e mais recentes não descem com facilidade. A crítica mais comum aos filmes de Antonioni ou à narrativa de Beckett ou Burroughs é que são difíceis de se apreciar ou de ler, "maçantes". Mas essa acusação é em realidade hipócrita.
Num certo sentido, o tédio não existe. O tédio é apenas outra designação de certa espécie de frustração. E as novas linguagens faladas pela arte interessante do nosso tempo são frustrantes para as sensibilidades da maioria das pessoas instruídas.
Mas o objetivo da arte é sempre, em última análise, proporcionar prazer, embora nossa sensibilidade possa demorar para alcançar as formas de prazer que a arte oferece em dado momento. E, podemos dizer também, comparando o aparente anti-hedonismo da arte contemporânea, que a moderna sensibilidade está mais interessada do que nunca no prazer, no sentido comum. Como a nova sensibilidade exige menos “conteúdo” na arte, e está mais aberta aos prazeres da “forma” e do estilo, é também menos esnobe, menos moralista – no sentido de que não exige que o prazer na arte esteja necessariamente associado à edificação.

Se a arte é entendida como uma forma de disciplina dos sentimentos e uma programação das sensações, o sentimento (ou a sensação) suscitado por um quadro de Rauschenberg poderá se igualar àquele suscitado por uma canção das Supremes. O brio e elegância de The Rise and Fali of Legs Diamond, de Budd Boetticher, ou o estilo de canto de Dionne Warwick podem ser apreciados como um acontecimento complexo e agradável. São experimentados sem condescendência.
Parece-me válido sublinhar este último ponto. Pois é importante compreender que a inclinação que muitos jovens artistas e intelectuais sentem pelas artes populares não é uma nova vulgaridade (como tão freqüentemente se critica) ou uma espécie de anti-intelectualismo ou algum tipo de abdicação da cultura. O fato de muitos dos mais importantes pintores americanos, por exemplo, serem também admiradores do "novo som" na música popular não é resultado da busca de uma mera diversão ou descontração; não é, por exemplo, como se Schoenberg também jogasse tênis. Reflete uma maneira nova, mais aberta de olhar para o mundo e as coisas do mundo, nosso mundo. Não significa a renúncia a todos os padrões: há uma infinidade de músicas populares idiotas, bem como de pinturas, filmes ou música de " vanguarda" inferiores e pretensiosos. A questão é que nesse caso existem novos modelos, novos padrões de beleza, estilo e gosto. A nova sensibilidade é provocadoramente pluralista; voltada ao mesmo tempo para uma torturante seriedade e para o divertimento, a ironia e a nostalgia. E também extremamente consciente do ponto de vista da história; e a voracidade de seus entusiasmos (e da substituição desses entusiasmos) é tremendamente rápida e excitante. Do ponto de vista dessa nova sensibilidade, a beleza de uma máquina ou da solução de um problema matemático, de quadro de Jasper Johns, de um filme de Jean-Luc Godard e das personalidades e da música dos Beatles é igualmente acessível.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

COMPLEXO DE CHULÉ - UMA ANÁLISE ANÁRQUICO-IRÔNICA DO ESPETÁCULO "OS NÁUFRAGOS DA LOUCA ESPERANÇA", DO THEATRE DU SOLEIL

Como vocês podem ver, eu fui.
Aqui, cabe mais uma vez a velha frase tantas vezes por mim repetida: “Porque ainda insisto em ir ao teatro?”
Os Náufragos da Louca Esperança, como todos sabem, utiliza-se da metalinguagem para fazer uma homenagem ao cinema a partir da história de um grupo de habitués de um cabaret, que resolvem fazer um filme. Mudo, evidentemente – afinal estamos em 1914, às vésperas da primeira grande guerra.
Em meio à monumentalidade dos cenários, que nos remetem aos painéis que compunham a cenografia dos antigos espetáculos de Vaudeville ou das comédias de costume, vemos um imenso grupo de atores (quantos são mesmo?) correndo de um lado para o outro (com um apuro técnico impressionante – é preciso reconhecer) para desfazer e refazer, a cada 10 ou 15 minutos, quadros compostos de janelas, carruagens, navios, salões.... etc, etc, etc – tudo isso com riqueza de detalhes naturalistas, claro.
Os cacoetes reproduzidos a exaustão pelos atores no intuito de mimetizar o tal do filme mudo, sequer são expressionistas (com exceção de uma das cenas do convés, na qual Maurice Durozier dá um show), opção que poderia salvá-los do enfado. Mas não, a preocupação excessiva em reproduzir uma “realidade” (?) exige que o filme mudo seja ruim - afinal trata-se de uma produção amadora (a do filme dentro da peça, que fique claro).
Museu.
Corro o risco de ser linchado em praça pública.
Assumo o risco: MUSEU.
Ok. Os museus são de fundamental importância na preservação da história da arte, mas costumam invariavelmente ser um grande amontoado de pinturas ou esculturas dispostas em salas, que temos que percorrer incansáveis, para finalmente nos depararmos com algumas delas que realmente possam receber o nome de ARTE.
Ok. O Theatre Du Soleil tem “trezentos anos” de existência; o Theatre Du Soleil, com seu modo de produção e espetáculos de uma enorme força visual e discurso humanista, constituiu-se numa revolução nos anos 70.
Nos anos 70.
Até quando vamos permanecer atrelados ao passado, nos recusando a dialogar com a contemporaneidade?
Até quando vamos ignorar o processo evolutivo pelo qual vem passando as artes de um modo geral, aprisionando o teatro no século 19?
Sim, porque a impressão que fica é que para o Theatre Du Soleil Artaud, Meiahold, Grotovsky, Gordon Craig... nunca existiram. Sem falar de Picasso, Van Gogh, Egon Schiele, Francis Bacon...
Essa impressão já havia me ocorrido quando vi o espetáculo que o Theatre Du Soleil trouxe para São Paulo em 2007; mas se em Les Ephemeres o ator era um dos elementos fundamentais do espetáculo, em Os Náufragos da Louca Esperança, ele está em quarto plano dentro da encenação; em primeiro está a contra-regragem, em segundo os cenários e em terceiro a música. O que revela, a meu ver, uma profunda contradição com seu discurso humanista.
E na platéia, alguns dormiam enquanto outros riam dos cacoetes. Terminada a primeira parte, aplausos calorosos, gritinhos... – todos os componentes necessários para a realização do ESPETÁCAULO (precisamos rever urgentemente, mas com olhos críticos, as reflexões de Guy Debord sobre a Sociedade do Espetáculo), afinal era o Theatre Du Soleil, um dos mais importantes grupo do teatro europeu.
Eu vim embora no intervalo – tinha mais o que fazer.
E o complexo de chulé? Foi só pra rimar, mas poderia também ser chamado de Complexo de Vira-latas – como diria Nelson Rodrigues.
Ah! E a opção vegetariana, constante do cardápio disponível antes do espetáculo, continha ovo. Mas como um grupo que usa casaco de peles em cena pode saber que vegetarianos se alimentam de vegetais e que ovo não dá em árvore?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ENTREVISTAS: OLIVIER PY

A entrevista a seguir traz algumas declarações do dramaturgo Olivier Py. O francês é pouco conhecido no Brasil, mas possui um longo curriculo de obras realizadas. Py é diretor, ator e escritor, nasceu em Grasse em 1965, se define como católico e assume sua homossexualidade. Em 1996 recebeu o prêmio francês Noveau Talent Théâtre. No ano de 1998 foi nomeado diretor do Centro Dramático Nacional/ Orléans-Loiret-Centre. Suas peças já foram traduzidas em vários idiomas, inglês, italiano e até em romeno e grego.O principal objetivo do artista francês é revelar em seus textos a escrita poética.



Entrevista concedida ao programa LA MANDRÁGORA, da TVE - Espanhola em 20/09/2008.
Legendas em espanhol, áudio original em inglês, mas com sotaque francês. Aproveitem.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

"UMA FERIDA ABSURDA"


O grupo Na Cia.dos Homens, com o apoio do Espaço dos Satyros, promove Oficina de Dramaturgia com a dramaturga argentina SONIA DANIEL, autora do texto UMA FERIDA ABSURDA, em cartaz desde 04 de maio no Espaço dos Satyros I.

Período: de 06 a 10 de junho de 2011
Local: Espaço dos Satyros I - Pça Roosevelt, 214 - Centro
Horário: das 14 as 17h
Número de Vagas: 15
Investimento: R$ 300,00
Interessados deverão enviar carta de interesse para o email
lion_sp@hotmail.com até o dia 25 de maio.

Durante a oficina os alunos produzirão textos teatrais a partir do estudo dos seguinte temas:

INTRODUÇÃO
- A Imagem Geradora
- Exercícios de Indagação Sensorial
- Mecanismos Geradores de Formas Abertas
- Articulação da Progressão - Digressão
- Tese, Antítese e Síntese
- A Estrutura como Método de Ação e Motivação

CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS- Tridimensionalidade
- Contradição Dinâmica
- Moral da Personagem
- Singularidade da Fala

CONSTRUÇÃO DO CONFLITO- Diferença entre Problema e Conflito. A Urgência.
- Conflito: Interno e Externo

CORREÇÃO DO TEXTO DRAMÁTICO- Leitura e Re-escritura. Técnicas de Correção


SONIA DANIEL é atriz, diretora, dramaturga e agitadora cultural. Nasceu na Provincia de Córdoba em 21 de abril de 1966. Premiada em seu país, atualmente, a obra de Sonial Daniel passa por um processo de descoberta; além do Brasil, seus textos vem sendo montados no México e em outras cidades da Argentina.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

"UMA FERIDA ABSURDA" 2011



Numa plataforma de embarque, uma mulher espera um trem que nunca para. Dividida em três (Uma, Outra e N) ela nos revela, de forma poética, fragmentos de sua vida: a busca pelo amor, o casamento, o aborto provocado pela recusa do marido em ser pai, a fracassada carreira de cantora e um misterioso assassinato.

UMA FERIDA ABSURDA, de Sonia Daniel
As quartas-feiras às 21h, de 04 de maio a 29 de junho
Espaço dos Satyros I



Ingressos: R$ 30,00
Meia R$ 15,00 (estudantes, classe artistica)
R$ 5,00 (moradores da Praça Roosevel)

Tem estacionamento ao lado (não conveniado)
Tem acesso para deficientes físicos


FICHA TÉCNICA
Texto - SONIA DANIEL

Tradução e Direção - CÉSAR MAIER

Elenco - MONALIZA MARCHI e SULIVAM SENA
 Iluminação - CIZO DE SOUZA
Fotografia e Captação de Imagens - ROGÉRIO CHE
Designer Gráfico e Visagismo - CÉSAR MAIER
Foto do Cartaz - LEO LEMOS
Trilha Sonora Original - REBELLO ALVARENGA
Produção - CÉSAR MAIER e SULIVAM SENA
Assessoria de Imprensa: EDUARDO GOULART DE ANDRADE

segunda-feira, 25 de abril de 2011

ENTREVISTAS: ROBERT BRESSON FALA SOBRE A DIREÇÃO DE ATORES

Na entrevista a seguir o cineasta francês Robert Bresson fala sobre a direção de seus atores e a distinção que faz entre teatro e cinema.
Bresson é considerado a figura mais representativa do cinema francês mundial. Robert é tido como o diretor minimalista do cinema, seus filmes dispensam atores profissionais e clichês de interpretação.

ENTREVISTAS: ROBERT BRESSON

O cineasta Bresson é considerado a figura mais representativa do cinema francês mundial. Robert é tido como o diretor minimalista do cinema, seus filmes dispensam atores profissionais e clichês de interpretação. Na obra cinematografica de Robert Bresson prevalecem os fade-in (aumento gradual da imagem) dos detalhes, a força do texto, e ironicamente também se exalta os longos períodos de silêncio e apenas a observação das ações. O francês dispensa atores profissionais para que possa romper paradigmas de interpretação e sugerir o novo, ações nada naturalistas e que são mecânicas de fato, pois o diretor acredita que o modo mecânico é o que mais se aproxima do real, pois não se reflete demasiadamente sobre como falar ou gesticular com as mãos, simplesmente o fazemos. Além disso, segundo Bresson, interpretar um sentimento é como impor ao expectador como ele deve se sentir diante de tal cena.
Acompanhe a entrevista e desvende o rico universo bressoniano.

Áudio original em francês e legendas em espanhol.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

PROGRAMA ESPANHOL FAZ ESPECIAL SOBRE HAROLD PINTER

O programa espanhol La Mandrágora realiza especial sobre o dramaturgo Harold Pinter. O show traça um perfil sobre o artista e suas peculiaridades, além de um documentário sua vida e obra.


La Mandrágora - áudio original em espanhol, sem legendas.


domingo, 10 de abril de 2011

ENTREVISTAS: DECLAN DONNELLAN - PARTE 2

Declan Donnellan é um diretor de teatro muito premiado por seu trabalho. O britânico fundou, juntamente com seu parceiro Nick Ormerod, a companhia Cheek by Jowl em 1981, famosa por diversas montagens. O diretor já adaptou os textos DON'T FOOL WITH LOVE de Musset, ANTIGONE de Sófocles, THE MANDATE de Erdman e Masquerade por Lermontov.

VEJA A SEGUNDA PARTE DE SUA ENTREVISTA A TVE. 

Acompanhe mais sobre o diretor na entrevista abaixo ou em sua página virtual http://www.cheekbyjowl.com/declan_donnellan.php  (site em inglês)

Entrevista concedida à TVE espanhola para o programa LA MANDRÁGORA, de 12/09/2009.
Áudio em INGLÊS -LEGENDAS EM ESPANHOL


sexta-feira, 8 de abril de 2011

ENTREVISTAS: DECLAN DONNELLAN

Declan Donnellan é um diretor de teatro muito premiado por seu trabalho. O britânico fundou, juntamente com seu parceiro Nick Ormerod, a companhia Cheek by Jowl em 1981, famosa por diversas montagens. O diretor já adaptou os texos DON'T FOOL WITH LOVE de Musset, ANTIGONE de Sófocles, THE MANDATE de Erdman e Masquerade por Lermontov.

Acompanhe mais sobre o diretor na entrevista abaixo ou em sua página virtual http://www.cheekbyjowl.com/declan_donnellan.php  (site em inglês)

Entrevista concedida à TVE espanhola para o programa LA MANDRÁGORA, de 12/09/2009.
Áudio em espanhol - Sem legendas

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

NA CIA DOS DOS HOMENS FAZ LEITURA DE MAURICE MAETERLINCK



Na Cia dos Homens realiza leitura dramática do texto INTERIOR  de  MAURICE MAETERLINCK na Oficina Casa da Palavra Mario de Andrade. O enredo é a história de um ancião e um estrangeiro que observam, de longe, através de três janelas, uma família que vive a tranquilidade doméstica de mais um anoitecer, sem a menor suspeita ou pressentimento de que sua filha mais velha se afogou num rio (talvez acidentalmente, talvez não) quando se dirigia a casa de sua avó.
Quando o ancião, amigo da família, está prestes a dar-lhes a notícia, ele hesita, pois deparar-se com o quadro de felicidade diante de seus olhos – uma tarefa que adiará até o último instante, quando finalmente uma multidão, composta pela população da cidade, se aproxima trazendo o corpo da jovem.

ELENCO: César Maier, Monaliza Marchi, Sulivam Sena
Direção: César Maier


Na Cia. Dos Homens - Flyer
Maurice Maeterlinck
Nascido na cidade de Gand, Bélgica, em 1862,Maeterlink é Considerado um renovador do teatro, tendo seu nome associado à dramaturgos como Ibsen, Strindberg e Tchekov. Em 1911 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.
Sua obra - um dos marcos do movimento simbolista – apesar de traduzida por grandes nomes da literatura brasileira como Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Carlos Drumontde Andrade, continua praticamente inédita nos palcos brasileiros.

Considerados, na época em que foram escritos,antiteatrais, por romperem com a exigência da imitação do real e com a convenção da ilusão teatral e da verossimilhança - defendidas pelos naturalistas - seus textos colocam em cena personagens à mercê de forças superiores e incompreensíveis (representação do ser humano perante o enigma do seu destino), cujos discursos fragmentados e desarticulados manifestam sua dificuldade em expressar sentimentos mais profundos que elas mesmas desconhecem.

Sua teoria teatral contida principalmente nos escritos Un Théâtre d’Androide e LeTragiqueQuotidien, bem como sua obra, é precursora, em vários aspectos, do pensamento e da obra de autores e/ou encenadores contemporâneos como Gordon Craig, Henrich vonKleist, Alfred Jarry,Antonin Artaud, Ionesco e Samuel Beckett.

Obra teatral:
La Princesse Maleine (A Princesa Malena -1889),L'Intruse (A Intrusa -1890), Les Aveugles (Os Cegos-1890), Les Sept princesses (As Sete Princesas -1891), Pelléas et Mélisande (Peleás eMelisanda -1892) , Alladine et Palomides (Aladino ePalomides - 1894), Intérieur (Interior -1894), LaMort de Tintagiles (A Morte de Titangiles -1894),Aglavaine et Sélysette (1896),MonnaVanna (1902), L’Oiseau bleu (O Pássaro Azul- 1908).


Fotos

Leitura dramática de INTERIOR
Oficina Casa da Palavra Mario de Andrade abre as portas para Na Cia. dos Homens
 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

UM RAIO DE ESPERANÇA

Victor Hugo Rascón Banda - Sede Geral da UNESCO, Paris, França, 27 de março de 2006


Todo dia deve ser dia mundial do teatro, porque nestes 20 séculos, a chama do teatro ficou sempre acesa em algum lugar da terra.

A morte do teatro foi anunciada sempre, principalmente com o aparecimento do cinema, da televisão e agora dos meios digitais.

A tecnologia invadiu os palcos esmagando a dimensão humana, tentou-se então um teatro plástico próximo à pintura em movimento, que acabou banindo a palavra. Surgiram peças sem palavras, sem iluminação e sem atores, apenas com manequins e bonecos em instalações pródigas em jogos de luz.

A tecnologia tentou transformar o teatro em fogo-fátuo, em espetáculo de feira.


Teatro - Imagens Google
Assistimos hoje ao retorno do ator em face ao espetáculo. Hoje nos deparamos com a volta da palavra ao palco.

O teatro abriu mão da comunicação midiática assumindo seus próprios limites que nascem da presença de 2 seres frente a frente comunicando sentimentos, emoções, sonhos e esperanças. A arte teatral está deixando de contar histórias para debater ideias.

O teatro abala, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É um diálogo compartilhado com a sociedade. O teatro é a primeira das artes a se defrontar com o nada, com as sombras e o silêncio, fazendo brotar a palavra, o movimento, a luz e a vida

O teatro é um acontecimento vivo que se consome a si mesmo enquanto é produzido, mas sempre renasce das cinzas. É uma forma de comunicação mágica que permite a cada pessoa dar e receber algo que as transforma.

O teatro expressa a angústia existencial do homem e restitui a condição humana. Não são os criadores que falam através do teatro, é a sociedade e seu tempo.

O teatro tem inimigos bem definidos: a educação artística ausente na infância, que não permite descobri-lo e apreciá-lo, a miséria que invade o mundo, afastando os espectadores das plateias e o desprezo e a indiferença dos governos que deveriam promovê-lo.

No teatro os deuses dialogavam com os homens, agora os homens dialogam entre si. Por isso o teatro tem que ser melhor e maior que a própria vida. O teatro é um ato de fé no valor da palavra sensata num mundo insano. Um ato de fé no ser humano responsável pelo seu destino.

Temos que viver o teatro para compreender o que está acontecendo conosco, para expressar a dor que paira no ar, e também para vislumbrar o raio de esperança no meio do caos e do pesadelo cotidiano.

Vivam os celebrantes do teatro! Viva o teatro!

(Tradução Hugo Villavicenzio)



O Dia Mundial do Teatro, criado em 1961 pelo Instituto Nacional do Teatro, é celebrado no dia 27 de março pelas unidades do Insttiuto e por toda a comunidade internacional. E para comemorar a data, todo ano, a UNESCO convida uma personalidade de prestígio mundial da área artística para escrever a mensagem a ser lida no mundo inteiro.

World Theatre Day ITI/UNESCO

terça-feira, 6 de outubro de 2009

HAROLD PINTER - ARTE, VERDADE E POLÍTICA

Discurso do dramaturgo inglês Harold Pinter sobre o recebimento do Prêmio Nobel de 2005, do qual foi ganhador.
As legendas do vídeo estão em espanhol, o áudio original em inglês. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

HAROLD PINTER - LÚCIDO E DEVASTADOR

Harold Pinter - Lúcido e Devastador
Natal de 2008. Do outro lado do oceano, na invernal Europa, falecia o dramaturgo inglês Harold Pinter, uma das vozes mais significativas da dramaturgia mundial do século XX, após uma luta de seis anos contra um câncer no esôfago.

Filho de um alfaiate judeu, nasceu em Londres em 1930. Antes dos vinte anos, começou a publicar poemas em diversas revistas. Depois estudou Arte Dramática na Royal Academy of Art e na Central School of Speech and Drama. Trabalhou como ator numa companhia shakespeariana, para depois dedicar-se a escrever obras dramáticas e roteiros cinematográficos, incluindo peças curtas para o rádio e televisão. Por isso o Prêmio Nobel de Literatura em 2005 foi o justo corolário de uma trajetória de cinquenta anos vinculadas ao teatro.

Falar de Pinter é falar de textos que, desde o início dos anos 50, começaram a calar fundo numa época em que os desatinos da Segunda Guerra Mundial deixara um sabor amargo. Para que reconstruir nossas casas e nossas vidas se existe o temor a um novo conflito? Nessa época, tanto Albert Camus como Jean-Paul Sartre levantaram teorias existencialistas e o pessimismo era uma espécie de leitmotiv cotidiano. Assim como o niilismo. O conhecido ensaio O mito de Sísifo, de Camus, esclarece com profundidade o que se vivia: Sísifo, castigado pelos deuses, deve empurrar uma rocha, sem parar, até o cume de uma montanha, de onde caia e ele deveria começar o trabalho novamente. O absurdo, o porquê e também o como. A loucura.

No início, Eugenio Ionesco e Samuel Beckett é que escreveram obras nas quais, por trás do aparente absurdo, havia um angustiante chamado de personagens desamparados, que esperavam algum sinal e que brincavam para "preencher" esse tempo cíclico. Trabalhos como A cantora Careca (Ionesco) e Esperando Godot (Beckett), entre os mais significativos, constituem o paradigma desse "absurdo" superficial que escondia mais de um significado. Na narrativa, é o absurdo labiríntico de Franz Kafka.

Sem dúvida alguma, Harold Pinter foi o continuador desta tendência na década dos anos 60. Mas voltando no tempo, no final do século XIX, num teatro parisiense o dramaturgo Alfred Jarry fez com que um de seus personagens pronunciasse o já mítico "merde". Nesse momento, algo mudou no teatro. Na obra O Amante, de Pinter, a concisa pergunta de Richard a sua mulher: " Seu amante vem hoje?" provoca outro baque, outra mudança. De alguma forma, sente-se o poder transformador da linguagem e, como um tremendo paradoxo, sua utilização para expressar um dos temas recorrentes desse momento: o problema da incomunicação.

Então, nesse contexto, esse jogo realizado pelos personagens para evitar a rotina, jogo que definitivamente também efetua uma rotina, não tem motivo para nos surpreender. É parte de uma realidade manifesta. Por isso mesmo, quando Pinter assinala: "Trato com personagens em situações limites de sua existência quando se encontram solitários, no momento em que voltam a seus dormitórios e enfrentam o problema básico de existir", apresenta-nos um panorama bastante desolador, diante do qual só cabe provocar este desdobramento, à margem da dor implícita em sua essência. Ironia. Confusão de planos. Ambigüidade. Perda da identidade. Necessidade afetiva. Todos estes elementos confluyen numa obra intensa, lúcida, devastadora. Como para seguir perguntando " seu amante vem hoje?". Como para continuar brincando. Ficção ou realidade?

REFÚGIO E ASSÉDIO

Uma temática constante nessas obras é que o mundo aparece como uma ameaça. Diante disso, seus personagens procuram um refúgio, que é representado por um quarto. E eles temem perdê-lo ou que alguém o invada. Assim, através de uma progressão imperceptível, aparecem situações naturais até chegar a uma inaceitável, num clima de total angústia, e o personagem principal aparece destruído moralmente. O escritor Ariel Dorfman, um estudioso de Pinter, em seu excelente livro O absurdo entre quatro paredes, destaca o seguinte: "As obras de Pinter ocorrem num dormitório, onde se refugiou um ser humano. Um perigo o espreita lá fora, um perigo que mal conhece mas que sempre quis esquecer; uma ameaça que vai-se tornando cada vez mais concreta nesse quarto e nessa consciência e em nossa mente de espectadores, mas que resulta cada vez mais vaga, estranha, impossível. No final da obra, a pessoa fica destruída. Às vezes é uma destruição total. Outras, uma destruição sutil, trinca-se um espelho interior que parecia limpo e eterno ".
O anterior nos remete à dialética do espaço aberto frente ao espaço fechado, um tema apropriado pela literatura, em termos gerais.

LINGUAGEM AMBÍGUA

Diferentes estudiosos recalcaram a importância da linguagem (o que se diz e o que não se diz) na produção pinteriana. Reconhecem sua economia de meios expressivos, seu silêncio, seus magistrais diálogos e uma grande habilidade para captar os ditos populares, incorporados de tal maneira que o que se diz nos parece incoerente. Isto é, manifesta-se uma aproximação da linguagem à verdade da linguagem falada, um verdadeiro coloquialismo. Para George Wellwarth, em Teatro de protesto e paradoxo, "Pinter faz gala de um ouvido realmente extraordinário para captar as pautas de linguagem das pessoas comuns, assim como possui uma grande habilidade para a criação de suspense mediante uma série de conflitos sustentados só momentaneamente. O diálogo de Pinter fascina por sua própria monotonia e reiteração". Para Pinter, "a linguagem é uma comunicação extremamente ambígua. Assim, freqüentemente, sob as palavras ditas está a coisa notável e não dita".

A nosso ver, um de seus textos emblemáticos é O Montacargas. Dois personagens (Ben e Gus) estão encerrados em um porão, esperando uma ordem para cumprir um "trabalho". O argumento nada mais é do que este; portanto, o que interessa é como os dois se inter-relacionam e as diversas ações (muito simples) que eles realizam para passar o tempo da espera. Por exemplo, logo no início Ben está deitado lendo o jornal e Gus está sentado, amarrando os cordões dos sapatos (esta imagem nos recorda Wladimir e Estragon em Esperando Godot). Depois, Ben se refere às intransponíveis notícias do jornal como, por exemplo, a de uma menina de oito anos que matou um gato. Desta maneira, tudo vai adquirindo uma dinâmica onde o simbólico e o ambíguo se entrecruzan continuamente. 

Definitivamente, são seres medrosos, inseguros, com desconfiança e obrigados, talvez sem querer, a compartilhar o mesmo espaço.
Neste contexto, tanto o montacargas como o tubo acústico nesse dormitório simbolizam a presença externa: "ouve-se um ruído metálico na protuberância da parede, como algo que está descendo". Isto provoca tensão e, ao mesmo tempo, violência, aproximando-nos de um desenlace inesperado, onde a ameaça externa já estava presente no espaço interior. A proteção diante da desproteção. Uma espécie de sufoco existencial, uma necessidade de escapar desse pesadelo. Gus, por exemplo, não gostaria de viver nessa pocilga"… ainda que "poderia passar se tivesse uma janela, visto que poderia olhar para fora".

Numa época em que a dramaturgia está tomando outra direção, onde a linguagem da palavra perdeu a capacidade expressiva (tema, sem dúvida, que dá para uma extensa reflexão e discussão), a partida deste dramaturgo constitui em si outro abalo. Assim, de abalo em abalo, constrói-se a história do teatro, no decorrer dos séculos e, em conseqüência, no específico, valoriza-se a contribuição dos cinquenta anos de dramaturgia de Harold Pinter. Para sempre.

OBS.: Artigo publicado originalmente no site amaivos.uol.com.br, adaptado por nós.

FOTOS DO ESPETÁCULO O "MONTACARGAS" - 2009

 O MONTACARGAS - César Maier em cena
Brálio Ferraz e César Maier
O MONTACARGAS - Harold Pinter
Na Cia. Dos Homens

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

"TEATRO DA AMEAÇA"


Imagem por Derren, feita em 2003.
Fonte: http://derrenbrown.co.uk/blog/2008/12/harold-pinter-rip/


"Não precisamos ser um quarto mal assombrado –
Nem precisamos ser uma casa.
O cérebro tem seus corredores – que vão além do material.
Muito mais seguro, é encontrar à meia-noite
Um fantasma esterno,
Do que confrontar sua contrapartida interior
– o anfitrião gelado.
Muito mais seguro, é galopar pela igreja
perseguido pelas pedras,
do que encontrar, desarmado, nosso próprio rosto
em um lugar ermo.
Nós mesmos, escondidos atrás de nosso rosto
- é o que mais aterroriza.
Um assassino escondido em nosso apartamento,
é um horror menor.
O corpo pede um revolver emprestado –
e tranca a porta,
que dá para um espectro superior
- ou mais."

Emily Dickinson


Já é senso comum entre a crítica literária e os estudiosos da obra de Harold Pinter, a classificação de algumas de suas peças como “Teatro da Ameaça”. Nestas pecas, os personagens encontram-se protegidos em quartos, apavorados diante da possibilidade ou da iminência da invasão por parte de algo ou de alguém advindo do mundo exterior, que “ameaçaria” suas vidas, organizadas a partir de normas e convenções estritas.

Poderíamos utilizar, num primeiro momento, a mesma classificação para O MONTAGARGAS, para logo depois percebermos que a ameaça, aqui, não vem de fora, mas habita o mesmo cômodo em que se encontram os personagens.

Em O MONTACARGAS, esse cômodo (o porão onde estão Ben e Gus, do início ao fim da peça) é esporadicamente “visitado” e nos remete ao porão escuro do inconsciente, cujo acesso é cada vez mais raro ao homem contemporâneo – a não ser nos sonhos cujos, conteúdos são rapidamente esquecidos, quando não ignorados. E é de modo inconsciente que introjetamos - ao longo dos séculos em que se deu a construção do mundo civilizado – a constante recusa a tudo que é frágil, tolo e ingênuo.

Cabe-nos, aqui, propor o seguinte questionamento: A quem essa fragilidade, tolice e ingenuidade ameaçam?